Leitor,
Pare!
Leia!
Pondere!
Decida-se!

SE ACREDITA QUE A INTELIGÊNCIA

SE FIXOU TODINHA EM LISBOA

NAO ENTRE NESTE ESPAÇO...

Motivo: A "QUINTA LUSITANA "

ESTÁ SITUADA NA PROVÍNCIA...

QUEM TE AVISA, TEU AMIGO É...

e cordialmente se subscreve,
Brasilino Godinho

quinta-feira, dezembro 10, 2020

 

UM TEXTO SEM TABUS…

Brasilino Godinho

05/Dezembro/2020

 

O ABUSO E O USO DOS TÍTULOS ACADÉMICOS

E OS PRURIDOS E EQUÍVOCOS QUE SUSCITAM

INTRODUÇÃO

Breves considerações de natureza pessoal (de Brasilino Godinho)

 

Em Portugal existe uma tradição cultural de doutorice aguda. Afirmação dita, repetida, escrita, ao longo do tempo, frequentemente por Brasilino Godinho (no Brasil, ao que julgo saber, qualquer indivíduo minimamente instruído ou possuído de bens materiais tem tratamento de dr.).

 

Ter tal reconhecimento nunca me inibiu de tratar os detentores de graus académicos por doutor (ou escrever dr.) engenheiro e arquitecto. Nunca senti qualquer constrangimento.

 

Escrito isto, importa anotar o que, ao compasso do tempo, me foi acontecendo ao longo da vida - desde os 28 anos de idade (se bem preciso a referência) na condição de desenhador e, posteriormente, a receber tratamentos vários que me foram sendo concedidos até à data da entrada a 20 de Outubro de 2008, a frequentar a Universidade de Aveiro, na singular condição de caloiro universitário com a provecta idade de 77anos.

 

Desde aquele remoto tempo de existência fui sendo tratado por topógrafo exercendo a função a nível oficial; por engenheiro, por arquitecto, por dr., por professor e até por inspector; esta classificação já como aluno da universidade aveirense e por confusão de colega suscitada pelo meu aspecto de sénior e de estar nas aulas sempre colocado na primeira fila e muito atento às preleções dos professores.

 

Nunca me intitulei engenheiro. Mas inúmeras vezes assim fui tratado. Dou registo de que até um distinto Professor Doutor, de elevadas projecção social e universitária, embora sabendo que não tinha formação universitária, me tratava bastantes vezes por engenheiro.

 

Também dou anotação de um caso que ocorreu comigo enquanto desenvolvia trabalho de campo concernente à elaboração de um projecto de estrada municipal, cujo traçado tinha início na vila de Vagos. 

Após o almoço, por volta das 15 horas, tinha o teodolito em estação e operava regularmente. Às tantas comecei a ficar rodeado de pessoas que, em voz baixa, iam trocando comentários em surdina. Apercebi-me que se estava criando um ambiente hostil. Eis que, de-repente, uma mulher interpela-me: sr. engenheiro, está a lançar a estrada pelas nossas terrinhas e isso é uma desgraça para nós. Respondi-lhe: não tenho outra hipótese. Além de que alguém virá fiscalizar o meu trabalho. E não me trate por engenheiro. Sou topógrafo!

 

Então a mulher, num ápice, saltitando como gata assanhada, esbracejando, em tom desabrido e profundamente irritada, vocifera: “Pois é, mandam prà aqui um tipógrafo que nem ingenheiro é, depois dá nisto!” O ambiente ficou conturbado a tal ponto que o “tipógrafo” esteve quase a ser agredido.

Se antes o grupo se continha e havia algum respeitinho pelo “ingenheiro” a partir do momento em que foi informado de que o técnico não o era, perdeu-se toda a respeitabilidade.

 

Brasilino Godinho aprendeu a lição. E sempre que, em exercício profissional de elaboração de projectos de vias rodoviárias, era tratado por engenheiro aceitava o tratamento como garantia do seu trabalho ser respeitado e aceite pelos descontentes.

 

Noutras ocasiões quando acontecia ser saudado como engenheiro informava o interlocutor de que não era detentor de tal título. Pouco valia; pois que em datas posteriores lá volvia a classificação. Pelo que Brasilino Godinho se habituou a conviver com o apêndice onomástico de engenheiro. A tal ponto ele sedimentado que hoje, sendo Doutor, ainda é, àsvezes, tratado por engenheiro.

 

Explicação para o facto: Brasilino Godinho praticou exercício profissional (a níveis oficial e particular) de engenharia rodoviária, sem possuir frequência e curso médio ou superior de engenharia civil e sem precisar de orientação de técnicos detentores do canudo; actividade que desenvolveu por largas parcelas do território nacional, com bastantes e importantes obras construídas sob projectos inteiramente da sua autoria.

 

Reportando-me à data do doutoramento, Julho de 2017, refiro que dias depois de ter alcançado o grau académico de doutor um amigo, vizinho de longa data, me cumprimentou: “Bom dia, doutor Brasilino”. Respondi-lhe: Caro amigo, ser doutor não significa que tenha sido rebaptizado.

  

Todavia, não rejeito o tratamento de doutor dispensado por quantos cidadãos não têm relacionamento de proximidade. Aliás, coloco esse tratamento no mesmo patamar daquele que se expressa pela palavra senhor. Também este termo não integra a identidade da pessoa e nem por isso é contestado ou rejeitado por gente que preza os valores da dignidade e do respeito que nos devemos mutuamente com os semelhantes.

 

Aliás e a propósito assinalo ser péssimo hábito de desprezo pela hierarquia familiar e de grupo (classificação naturalmente ordenada, até existente em várias espécies animais) o tratamento tu cá, tu lá, entre crianças, pais e avós, muito em voga na sociedade actual.

 

Diga-se, sem tibieza: Muito do que vai prevalecendo desordenado, irregular, caótico e mesmo perversões do foro criminal, na sociedade portuguesa tem nessa anomalia relacional no seio da família a sua perversa origem.

 

Neste aspecto, a sábia Natureza ensina-nos como os humanos devem respeitar normas de racional vivência social e harmonização cívica.

 

(Continua em Parte I, Considerações de múltipla generalização)