Leitor,
Pare!
Leia!
Pondere!
Decida-se!

SE ACREDITA QUE A INTELIGÊNCIA

SE FIXOU TODINHA EM LISBOA

NAO ENTRE NESTE ESPAÇO...

Motivo: A "QUINTA LUSITANA "

ESTÁ SITUADA NA PROVÍNCIA...

QUEM TE AVISA, TEU AMIGO É...

e cordialmente se subscreve,
Brasilino Godinho

domingo, julho 21, 2019


FELICIANO VERSUS FELIZARDO
A RELAÇÃO SURPREENDENTE

Brasilino Godinho

No meu tempo de criança e adolescente, frequentando a escola de Ensino Primário, primeiro, e depois a Escola Industrial e Comercial Jácome Ratton, na cidade de Tomar, costumava passar férias na aldeia Pedreira, em casa dos meus avós paternos. Para ocupar o tempo tinha por hábito acompanhar as tarefas agrícolas dirigidas pelo caseiro Feliciano, que também tratava do burro a que pusera o nome de Felizardo, com nítida intenção pejorativa.

De assinalar que era empolgante assistir às peripécias do relacionamento atribulado entre o caseiro Feliciano e o burro Felizardo; embora me desagradasse presenciar as ocasionais e desabridas agressões físicas de que era vítima o Felizardo; o qual, infelizmente, estava longe de o ser, sempre que estava por perto o Feliciano.

A manhã começava com a chegada de Feliciano ao curral de Felizardo e a saudação nada amistosa ao animal em tom agressivo: Seu burro! Seu tratante! Seu malcriado! Seu manhoso! Já te vou fazer a cama… E trato-te da saúde! E batendo-lhe com chicote: Toca a andar! Meche-te! Grande patife! E desta maneira violenta o Felizardo era escorraçado do curral. Porém, o Felizardo, mantendo serenidade e parecendo não ligar patavina aos impropérios desabridos de Feliciano, saía pachorrentamente – o que irritava sobremaneira o caseiro da casa.

Entretanto Felizardo, imobilizado junto à parede exterior, aguardava que Feliciano fizesse a limpeza do curral e na manjedoura colocasse a sua ração diária. Finda esta tarefa matinal de Feliciano, este acompanhava Felizardo nas várias deslocações para as hortas e para a fonte onde era recolhida a água para os consumos domésticos. Nos trajectos efectuados pelo duo, o Felizardo ia suportando estoicamente as agressões verbais e físicas do Feliciano; o qual sempre manifestou um ódio de estimação pela criatura Felizardo.

Não obstante a pacatez de Felizardo, às vezes a relação azedava-se e Felizardo, com enorme coragem, em lugar de avançar recuava teimosamente. Feliciano, de cabeça perdida, não parava de berrar com ele e de tentar agredi-lo violentamente. Aí dava-se a refrega: e Felizardo começava a escoicear vigorosamente. O caldo entornara e parecendo magia, Feliciano, num ápice, sustinha a fúria, a modos de parecer um cordeiro manso. Então, Felizardo, senhor da situação, seguia em frente, ligeiro e Feliciano tinha de estugar (o passo) para poder acompanhar a rápida marcha de Felizardo.

Como nos antecedentes parágrafos relato, o relacionamento entre Feliciano e Felizardo era conflituoso. Assisti a cenas impressionantes de brigas entre os dois em que Feliciano berrava e tentava bater-lhe e Felizardo dava urros, mostrava os dentes, irritado, e atirava coices, a que Feliciano se esgueirava; por vezes, com sorte. Nunca foi atingido pelo escoicear de Felizardo. Certamente, porque, quando a coisa descambava para o torto, Feliciano aquietava-se bruscamente.

Desses tempos e de tudo que testemunhei do relacionamento entre Feliciano e Felizardo colhi a impressão/crença de que Felizardo era mais inteligente e estratega que o caseiro Feliciano. Quando havia refrega, Felizardo saía sempre vencedor e mostrava-se satisfeito, abanando as orelhas, abrindo a boca em zurro baixinho e compassado; também associando um esgar – entendido como escárnio e expressão de triunfalismo.

Aprendi bastante com Felizardo; nomeadamente, no que concerne a resistência passiva e capacidade e sentido de momento certo para enfrentar dificuldades e situações adversas, como aconteciam na relação do carrasco/demónio que era Feliciano, com o pacífico e bem-intencionado ser vivente, Felizardo, de sua amarga graça. Frequentemente, trocávamos olhares cúmplices. Às vezes, cavalgava-o nas idas a Tomar, aos sábados, com grande gozo. Tinha grande admiração, estima, pelo Felizardo. Dele conservo agradável memória.