UMA DISTINTA PEÇA LITERÁRIA
O lançamento
da obra VIDA UNIVERSITÁRIA DE BRASILINO GODINHO, realizado no dia 02 de Junho
de 2018, em Aveiro, teve a assinalá-lo a leitura do texto de respectiva
apresentação, da autoria da Professora Doutora Annabela Rita que, por motivo de
enfermidade física, não teve a possibilidade de se deslocar de Lisboa a Aveiro.
A Dr.ª
Gracinda Martins, figura de relevo na universidade aveirense, efectuou a
leitura com impecável dicção.
O texto em
referência, para além do elogio da obra e de exaltação do autor é, sobretudo,
uma notável peça literária, de brilhante e erudita contextura, que deve ser
divulgada.
Em anexo a
publicamos.
Da
promessa à realização… a prumo!
Annabela
Rita
UL-FL-CLEPUL
A todos, as minhas melhores saudações.
Dirigentes institucionais, Colegas da
Academia, Amigos do Doutor Brasilino Godinho, Editora.
É uma honra para mim poder enviar esta
mensagem em ocasião tão especial.
É uma honra ter sido convidada a isso
pelo nosso novo e mais velho Doutor da Academia nacional, Doutor Brasilino
Godinho.
Foi uma honra e um prazer ter sido um
dos arguentes nas suas provas, tê-lo conhecido então e ter convivido com os
Colegas que já o conheciam, ter constatado a singularidade do Académico, na
atitude da pessoa e no seu “grão da voz” (Roland Barthes).
Honra e prazer que muito agradeço a
todos os mencionados, com o devido apreço.
E permitam-me que comece partilhando
convosco o eco de Antero de Quental que creio chegar-me de longe, quiçá
antecipando a figura de Brasilino Godinho:
Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depois do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depois do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
…
Antero de Quental
A Vida
Universitária de Brasilino Godinho, que hoje aqui se dá a ler em volume com
retrato e original, é, como se indica na capa, “Breve Crónica” em registo de
frontalidade que o povo descreve em
dupla expressão também nela inscrita: “Pão, pão,/ queijo, queijo./ Nem
presunção, nem água benta.”.
Da oportunidade e da importância desta
edição, destaco 2 factores mais óbvios:
1.
a
sua exemplar correspondência a um valor actual internacionalmente subscrito, bandeira
que a UNESCO e a União Europeia agitam: a aprendizagem ao longo da vida (Lifelong learning);
2.
a
sua simbólica importância numa altura de crise de valores, do ensino e da
academia, em que a idade deixou de concitar o respeito generalizado e o diploma
deixou de assegurar emprego, profissão definida e a adequação ao mercado de
trabalho instável, exigindo múltiplas competências, versatilidade,
adaptabilidade e empreendedorismo.
Esses factores convergiram, aliás, no marketing em que a Universidade de
Aveiro tão oportuna e estrategicamente deu relevância ao caso Brasilino Godinho, caloiro aos 77 anos e doutor aos 85,
“cabeça de cartaz” de uma campanha de angariação de alunos. Caso: pessoa e circunstâncias. E,
ironicamente, o caso chegou a
interpelar a Universidade que o configurou como tal, rigorosamente nos tópicos
que o marketing lhe destacou: “Nunca
é tarde…!” Então, já com o diploma… o emprego, esperança inscrita na conquista
da competência/diploma? Spera Mundi,
como essa divisa de outrora, de imperial recorte e manuelina subscrição…
Mas outros factores poderia invocar.
Elenco alguns:
O registo para memória futura de um percurso. Para si e para os que o
acompanharam, para os que dele tiveram notícia, mas não conhecimento próximo,
abrindo-se a um convívio além de si.
O registo para balanço de
viagem. Relatório ponderando o positivo e o negativo do roteiro. Com ‘mapa de
honra” e “mapa negro”, as estranhezas, os insólitos, os episódios marcantes.
Factos, nomes, datas, lugares e intenções a reter desde “Um facto insólito com
seu quê de premonitório” até “Brasilino Godinho escreveu a sua excelência e sua
excelência felicitou Brasilino Godinho”: trajando a capa negra de estudante,
vêmo-lo crescer e amadurecer desde o retrato na mata do Convento de Cristo até
ao que se fixou na capa deste livro. A mesma pose, a três quartos, olhando-nos
da (nossa) direita, fixando-os hipnótico olhar, ciente de si e da sua
realização, quiçá desafiador do mundo.
O registo do apelo “de Aveiro para o Mundo”,
grafado no livro, insinuado no microfone: à Universidade dos Açores no sentido
de que assuma o nome do seu mais marcante e trágico protagonista, Antero de
Quental; ao Mundo, para que acolha e acarinhe casos como o seu e para que
muitos lhe sigam o exemplo.
O registo da partilha com todos: contemporâneos e do futuro. Das modulações da
sua vivência emocionada, às vezes, mesmo, intimista. Da experiência de
iniciativas (até de requerimentos com fundamentação) alertando para um além da
academia, para a possibilidade de, empreendedoramente, se ensaiar na vida
académica a lição do que a excede e vice-versa. Revelando no seu modelo
pessoalíssimo o que outros poderão adaptar e afeiçoar a si. Conversando a sua experiência.
O registo da valorização da experiência e do conhecimento em todas as esferas da
vida, transitando entre áreas disciplinares tão distantes como o desenho, a
topografia, a engenharia, a literatura, a cultura… com e/ou sem diploma, entre
a academia e o mundo laboral, sempre aspirando a fazer mais e melhor, a deixar marca.
O registo do sonho. Demonstrando que as utopias são formativas e estimulantes, se
podem cumprir, que há sinais que são proféticos, que… querer é poder! A lição do ideal, vento nas velas de qualquer
caravela que enfrente o mar da realidade…
O registo da ironia e da crítica. Para
promover a ponderação, a consciência, o sorriso… e a mudança das mentalidades.
Até a instância máxima do país, o Presidente da República, lhe correspondeu…
Poderia continuar a listagem, mas,
sendo esta ocasião de convívio com o nosso autor, devo conter-me… concluo
assinalando 2 aspectos que me parecem fundamentais nesta ocasião, com a pessoa
e com a obra.
O primeiro é o da lição sobre o imenso
tesouro de que dispõe a sociedade e que não aproveita como poderia/deveria,
tesouro excedendo qualquer outro cuja dimensão fabulosa nos fascina e nos atrai
para uma busca sem fim à vista. Refiro-me ao capital de sabedoria, de
experiência, de competências, de disponibilidade e de conhecimento do histórico
das coisas da vida de que são guardiões os nossos ‘mais velhos’, aqueles que as
sociedades tradicionais valorizam e que as sociedades ‘desenvolvidas’ tendem a
deixar na margem da acção. Como nas cenas da BD (os Astérixes fornece-nos bons exemplos disso) em que estes observam e
comentam, com complacência, o comportamento impulsivo e inconsequente dos mais
jovens que, mergulhados na vertigem da acção, nem se apercebem da sua impertinência
ou disparate…
O segundo é o da importância
estratégica dessa geração de guardiões
sem a qual o legado identitário (familiar, nacional, empresarial ou outro) se
perde sem transmissão e sem remissão, com o deslaçamento das comunidades, a
dissolução das identidades culturais, a diluição da consciência da história
individual e colectiva, assim como da sua mútua relação, o alzeimer das sociedades… de Renan a Benedict Anderson e, deste, a
Brasilino Godinho, todos o reconhecem.
Acarinhemos, pois, e acolhamos esta Vida Universitária de Brasilino Godinho
e o seu autor, saudemo-lo e que ele nos ajude a promover uma sociedade melhor,
mais humana, consciente, feliz na
partilha do conhecimento.
Salve,
Doutor Brasilino Godinho!
É a Hora!
Valete, Fratres!
Fernando Pessoa
Linda-a-Velha,
31/5/2018
0 Comentários:
Enviar um comentário
<< Página Principal